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O mundo ao contrário

Fotografia: Florencia Brain @ Pexels.

O cuidar não tem idade…
As histórias quase nunca são assim…

O dona Teresa tem 72 invernos gravados na pele, no cabelo e nas memórias.
A dona Teresa cuidava da mãe, das casas, do quintal, das galinhas e dos coelhos. Nunca esteve doente e curava tudo com rezinhas e chás de ervas que a avó Maria ensinou a colher nos campos.
Acordava todos os dias às 6h30 da manhã e não parava um segundo.
“Tinha pilhas Duracell” – diz a sobrinha.

Um dia a dona Teresa sentiu-se mal, caiu na casa de banho e teve um AVC que deixou imensas mazelas. Ela não fala, praticamente não se mexe. Segue-nos com os olhos…mas é um olhar vazio, distante.
Mal entrámos no quarto, vimos uma senhora muito magra, cabisbaixa mas com uma energia “contida pelas dores”!

“A vida é cruel. Uma mãe não nasce para isto! Só tenho esta menina! Que vai ser de mim agora?”
“Acham normal? Uma mãe ver-se nesta lida?” – disse a dona Maria Alice.
A dona Maria Alice tem 88 anos e agora tem de cuidar da sua filha com 72.
Falava connosco mas não olhava para nós. Estava sempre em modo “cuidar”!
“O mundo está ao contrário!” – dizia a mãe enquanto dava um iogurte à filha com todo o carinho.
“Tens de comer minha filha! Estás tão magra! Sempre comeste bem meu amor!”
No alto das suas 88 primaveras ela não parava um segundo. A sua elevada fragilidade estava escondida debaixo da vontade de cuidar, de amar, de zelar pela sua única filha!
“A minha vida desabou!

Era ela que cuidava de mim. Limpava a minha casa. À noite trazia-me a sopinha!
E agora, já viram isto? Oh meu Deus!”

Parecia que estávamos a ver um filme “nunca visto”!
O mundo estava agora ao contrário. A mãe, já cansada e “doente dos ossos”, cuidava agora da sua filha de 72 anos.
Mas quando o rio que “parecia correr para a foz, para o mar” deu uma volta de 360 graus.
Mas a dona Maria Alice “vestiu a capa” das super mães e “regressou” para cuidar, para amar.
As mães são assim. Vestem as “capas” de todos os heróis e mesmo perante o gelo, o vento forte, as tempestades, as dores atrozes, ela apanha o caminho todos os dias até ao quarto da “sua menina”.

Da porta, despedimo-nos da dona Maria Alice. Estava a limpar o rosto da sua filha. Enquanto o fazia falava com ela.
A filha não se mexia, tinha o braço esquerdo paralisado, não falava. Não sei se percebia que ao lado estava uma SUPER MÃE!
Um mãe que, apesar das dores, limitações do tempo, amava com todos as letras da palavra AMOR.

Ao longe realmente o mundo parecia ao contrário.
Mas…
Estava como sempre esteve. Estava a ser lugar de cuidado, quentinho e aconchegado pela ternura das mães.

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