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Amar no silêncio

Vou falar-vos do senhor Manuel.
Qualquer um de nós pode, um dia, “ser ele!”

O senhor Manuel tem 91 anos, e encantra-se numa situação de enorme fragilidade, mas mentalmente está muito bem
O Manuel está internado há meses, sozinho e sem qualquer visita.
Como as únicas “companhias” que tinha ao lado do seu cadeirão eram a solidão, as dores, remorsos e as desilusões da vida, ele começou a fechar-se, ficar em silêncios que duravam dias.
Ele é de uma enorme simpatia, atencioso, querido e com um sentido de humor maravilhoso.
Ele está na cama 21, logo na entrada daquele quarto, à nossa squerda.

Durante o tempo que estivemos lá, ele brincou sempre connosco. Repetia aquilo que nós dizíamos e que ele achava imensa piada.
“A filha ao inicio vinha-o visitar, mas com o tempo as visitas começaram a ser menos e mais espaçadas no tempo. Agora ninguém o vem visitar!” – disse a terapeuta. Era uma jovem muito simpática e amiga dele, a quem nós chamávamos “neta”.
Com o passar do tempo, o senhor Manuel foi ficando mais alegre, sorridente e brincalhão!
Até em inglês começou a responder-nos.
Muitos de nós pensamos nisto e refletimos sobre o assunto.
Mas deveríamos calçar mais as pantufas dos Manuéis, dos Antónios, das Marias e Rosas.
Acumular o saber, os conhecimentos, a sabedoria que o tempo “oferece” faz com que a observação, a leitura, a perceção do abandono, das ausências e das desilusões sejam de uma crueldade que fere, que pode enrijecer os mais belos dos corações.
Ser vistos de novo e ouvidos de novo faz autênticos “milagres”

Não é preciso muito para magoar, desiludir alguém…mas, muitas vezes, não é preciso quase nada para ver a “luz” a acender-se de novo, as janelas a abrirem-se e as “casas” ganharem cores.
O homem que estava na cama 21 era “alguém”, mas podia ser eu, tu ou qualquer um de nós.Estava preso nas suas dores, pensamentos duros e cruéis. Mas passados minutos estava vivo outra vez.
Todos nós podemos vivenciar momentos difíceis em várias fases da nossa vida. Mas o botão de “acender o candeeiro” está lá, está sempre lá!

No final, e ao despedirmo-nos, o senhor Manuel desenhou um coração com as mãos e os dedos.
Dizer a alguém que o apreciamos e amamos não precisa de letras, palavras ou texto.
Há gestos que falam, cantam alegria, vida, cores, cheiros, partilhas….vidas!
Há poetas, pintores, artistas que conseguem expressar a alegria, o amor e a felicidade de formas soberbas…
Mas o senhor Manuel, que hoje é ele e amanhã pode ser eu, tu, nós, decidiu num gesto simples expressar a beleza que está guardada no coração dos nossos Mais Velhos.
Os seus corações foram limados e esculpidos pelo tempo, tornando-se refinados. É a excelência aprimorada do ser humano.

Ouçam-nos, abracem-nos, amem-nos, pois eles são os “minerais mais refinados, puros e bons”!

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